segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Homs
o pouco trigo
colhido com sangue.
A chuva cai
a gota que volta
à terra
que suga
a fome.
Que felicidade há
quando não mais há
felicidade alguma?
O céu derrama
seu pranto,
o que não consegui.
Tudo retorna
ao que é:
o círculo perfeito
a terra seca
o ar límpido
as águas eternas
o fogo.

Capua Leg.
domingo, 22 de outubro de 2017
Tormentas
IRAS 16399-0937 [NASA/ESA Hubble Space Telescope image]
Ouço inevitáveis ecos de estrelas distantes
tormentas e explosões em escalar medida
ferozes, dentro e fora de mim fluem abóbadas cintilantes
átomos de todos os momentos dançam dançam
do passado, do antes mesmo, e do depois do antes –
eu deveria tocar os desastres que erram
ousar abri-los com a ponta dos dedos
e esperar, esperar, esperar
tudo retornar ao abissal caos primordial
mas, no escuro, minha fronte treme
astros arrastam-me e dançam ao redor
em vagas de grande força, o silêncio dentro do estrondo
como pétalas que por algum modo mortal crescem
o silêncio é o tempo aberto no caos
já não tenho medo de cair no céu
onde o ar limpo e fino verga-se como músculos distensos
– o inevitável dança de novo e de novo, em ínfimos sopros
como uma concha antes do sempre. Aeternum.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Precisamos falar sobre Vincent
Capa da biografia 'Van Gogh", David Haziot, da L&PM.
Muitas pessoas
associam a imagem de Vincent Van Gogh à de um louco, um alucinado, e interpretam
de maneira equivocada o seu olhar sobre o mundo, não compreendendo o apuro técnico magnífico que o artista trabalhou e que expõe com maestria em suas
pinceladas. Essa interpretação errônea,
creio eu, afeta o olhar das pessoas sobre a sua obra, desviando-a de sua
verdadeira magnitude e projetando-a no limiar da loucura.
Mas Vincent,
embora tenha passado por momentos de tensão e desespero e por alguns colapsos
nervosos, não foi um louco. Antes disso, foi um visionário muito além de seu
tempo, foi um crítico mordaz da arte feita em sua época, foi um aprendiz dedicado das técnicas e que trabalhou de maneira tão intensa ao ponto de se autoanular, foi um artista que escolheu um áspero e duro
caminho para construir a partir de seu próprio sofrimento um olhar terno
sobre o mundo. E Vincent o fez, de maneira sublime, radical e extrema.
Para reaprender
sobre Vincent, eu sugiro a leitura de uma de suas tantas biografias: a de David
Haziot, “Van Gogh” [há uma edição de bolso, da
L&PM]. Haziot nos coloca frente a
frente com um outro Vincent, aquele que sai de uma infância atormentada e cresce
em cidades diversas, muitas vezes em isolamento total, ou em cambiantes momentos
de encontros e desencontros, que mais ainda o atormentavam, pois Vincent era uma
pessoa difícil de convivência, embora dócil e humano.
Haziot parte de
aspectos de sua infância e vida adulta, da convivência turbulenta com o pai, e
das suas relações de amizade, interpretando de maneira nada romântica as suas
cartas, as quais são a prova de que Vincent nunca enlouqueceu: suas palavras são
sempre lúcidas, transparentes e efetivamente reveladoras de suas aspirações e de
sua evolução como artista, tanto na interpretação do mundo quanto no desenvolvimento de sua
técnica.
A relação com
Theo, seu irmão e mentor, única pessoa que efetivamente compreendeu amorosamente
o grande artista por trás da figura aparentemente atormentada, traduz-se nas
longas cartas, mescladas com a paciência, a inteligência e a energia de
Vincent. Essas cartas, são, por si, uma grande obra, e Haziot menciona suas
características reflexivas e filosóficas, além de sua beleza narrativa singular:
Vincent também pintava com as palavras.
Para não avançar
sobre as surpresas desta biografia, deixo a leitura e a reflexão a vocês. Mas
alerto que, para alguns, a revelação do caráter de alguns mitos poderá ser
incômoda, ou por vezes decepcionante, principalmente quando percebemos a
mitificação de outros grandes artistas que conviveram com Vincent. Em especial Gauguin, pois Haziot desvenda de maneira singular a relação entre os dois, expondo aspectos que foram desconsiderados ou foram escamoteados ao
longo do tempo. Vincent se entregou à amizade e à devoção a Gauguin de uma
forma extrema, como tudo em sua vida. Mas o resultado dessa devoção foi
aterradoramente prejudicial ao artista grandioso que era o próprio Vincent.
Por fim, eu diria
que essa biografia nos desperta para um Vincent mais humano, mais alegre, mais sensível,
longe do mito de artista maldito e louco, que não lhe cabe, e que foi
equivocadamente impresso à sua imagem e à sua obra, como algo excessivo e
insano. Vincent nunca foi louco. Em uma carta a Theo, por volta de 1889, no asilo
Saint-Paul, em Saint-Rémy de Provence, Vincent escreve:
Nunca
tive uma tal oportunidade, aqui a natureza é extraordinariamente bela. [...]
Estar suficientemente aquecido para fundir esses dourados e esses tons de
flores – não é qualquer um que consegue, é preciso toda a energia e a atenção
de um indivíduo inteiro.
Como poderia ser
louco quem assim descreve o que sente e pinta?
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Memórias
L´hermafrodite endormie, (sculpture, antiquité Grecque, periode 323-31 a.v J.-C, Musée du Louvre).
Sonhos ásperos. O céu turvo em lilases. Ao despertar, o que
acontece? Vejo passar os carros velozes, vejo as pessoas indo a nenhum lugar
algum, vejo que há fissuras e é por elas que escolho passar, por entre
angústias de despedidas e chegadas. A vida sucessiva, a espera, os
esquecimentos. O que somos senão memórias anciãs vagando no espaço estelar?
Meu sonho vaga como um prenúncio. Esqueço-me do ontem, o sonho
múltiplo com cheiro de tuias maceradas, espaços moventes e cambiantes, o sonho
em que descem nomes sem nomes de naves transparentes. O que sonho? Pura loucura
que habita todo o espaço e todas as vidas de outrora no cinzento abismo estelar.
Minha memória reflete o céu e não há nenhuma explicação para isso.
O que estou escrevendo? Seria o sonho a sucessiva imagem
habitada de cada haste, de cada ser, de cada grão de areia, de cada nuvem e de
cada vida? Que estranha memória eterna e única forma narrativa dos sonhos que
nos habitam?
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Nau
A nau a caminho,
Esqueci-me de partir.
O leme frouxo na maré estival,
as mãos perdidas, o olhar eterno,
os lábios ressecados de sal e sol
e a lembrança
– a lembrança de seus abissais braços metálicos –
amarras a ancorar-me em tormentas
de febre e amor soterrado.
A embarcação segue, insana
mar adentro, profundo e negro,
o cordame esfarrapado
as velas obtusas, silentes
mas sou eu que naufrago:
vozes eternas sussurram
sopram, se dobram e se quebram
vozes abafadas no movimento
das espumantes ondas negras –
partiu a nau, para sempre
sem mim.
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