sexta-feira, 26 de junho de 2020

Século para versos inúteis




Foto: TGWKE's



Ouça
no silêncio da tarde
ouça
pelo menos uma vez
ouça


há um coração que pulsa o canto de uma fonte de vida no crepúsculo dessas nuvens cinzentas


ouça
há vozes patéticas
repetindo a cantilena de séculos


ouça
há os que creem
há os que não creem
shhhhhh!
ouça
há uma batida um sopro um ar que se retira suspenso na órbita do dia


ouça
pelo menos uma vez
ouça


já lhe disseram que sou louca
enganam-se: estão errados
há séculos de flores e ervas pisoteadas em meu coração
tum tututum tum
ouça



.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Esferas


Jupiter, Saturno, Pisces. 


No céu de novembro
trêmulas esferas cintilantes
nenhum sinal, nenhuma dor
nenhum verso estanque
: a pele áspera e escovada do tempo
apenas silencia no turbilhão etéreo e móvel
a harmonia do mundo.

No íntimo das coisas a espera amorfa
a sublime névoa da semente da vida
única e eterna, vibra.
No exterior das coisas o silêncio escandido
a posse do tempo e o bater de címbalos
que, sombrios, escorrem em direção à luz.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O rio do tempo

 
Nada escuta o sussurro das pedras
um retrato sonhado de Ondinas
as transgressões e desejos da terra
ou a ira corajosa de águas tormentosas.

Apenas o tempo antigo de um rio ignorado
 suave e sem ruído –  impresso em lisuras
como se ventos submersos fossem
lapidam cantos gregos em catedrais em ruínas.

Repetindo o azul do céu como astros que nascem do chão
hortênsias flutuam às margens do rio do tempo –
a natureza encerra seus silêncios espelhados.


 Imagem: Gyro, iStock



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

[...]


perco-me na pressa das horas
observo os passantes
suas nebulosas retinas
e tudo o que os olhos não alcançam

o silêncio permanece lá fora
o céu estático, sem cor
nada recria a pedra, o acre pó
na terra abandonada e fria
de um tempo outro
de uma morte em áspera melodia
no oceano denso e azul

nada lembra o acaso das horas
nem sinos nem tiros de canhão
nem satélites nem feitiços

sob o céu mudo não estou
nem nesse tempo nem em outro
um vazio mediterrâneo no peito



domingo, 23 de dezembro de 2018

Tempo


"O tique-taque de nossos relógios é tão grosseiro, tão mecanicamente contido que não temos ouvidos capazes de ouvir o tempo que passa." [Gaston Bachelard, A poética do Espaço]

A beleza floresce em tudo, na chuva breve, nas pedras calcinadas, no musgo do tempo, na deterioração entrópica, na morte. A vida, essa vida de elementos e sementes nos passa despercebida, contida, nos escapa na ponta dos dedos porque estamos ligados irremediavelmente ao tempo dos relógios, à marcação instituída, à pressa do dinheiro. Somos incapazes de ouvir o verdadeiro tempo que passa, se disfarçando em outonos e primaveras, decaindo triste e belamente na síntese que prenuncia a morte. Essa outra beleza, que negamos, por representar o fim. Fim? Não há fim no passar silencioso do tempo, nem no barulho ensurdecedor dessa catástrofe. Não sei de maior alegria que aceitar esse decaimento, que absorver o insólito clarão da manhã, no cinza de nuvens densas que roubam o azul como espelhos sujos, no dia que se perde em abandonos. Para ouvir o tempo é preciso que os sentidos se destoem e se percam naquilo que perece sem resposta.

Foto: LoboStudo, Hamburg/Unsplash.





sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Lachrimae Caravaggio




Black hole


No céu de novembro
trêmulas esferas cintilantes
nenhum sinal, nenhuma dor
nenhum verso estanque
: a pele áspera e escovada do tempo
apenas silencia no turbilhão etéreo e móvel
da harmonia do mundo.

No íntimo das coisas a espera amorfa
a sublime névoa da semente da vida
única e eterna, vibra.
No exterior das coisas o silêncio escandido
a posse do tempo e o bater de címbalos
que, sombrios, escorrem em direção à luz.